Viver é mais que respirar – Uma reflexão sobre o momento actual

Viver não é só respirar.

Vivemos momentos difíceis, não há dúvida quanto a isso. Tivemos que nos adaptar a uma realidade totalmente desconhecida para a maioria de nós, vivendo diariamente com esta sensação interna de insegurança e constante alerta. Só por si, esta sensação já produz danos suficientes para nos deixar preocupados, mesmo que pareça algo de menor, no panorama global que é a vivência deste vírus desconhecido. E porquê? Porque somos seres inerentemente sociais.

Chegamos ao mundo já preparados para nos relacionarmos, para nos ligarmos aos outros. Desde o momento que respiramos fora da barriga da nossa mãe, desde a nossa primeira respiração e contacto com o mundo exterior, começamos uma viagem em busca de uma sensação de segurança, primeiro em nós, no nosso corpo, depois no que nos rodeia e, finalmente, nas relações que estabelecemos com o outro.

Para que isto seja possível, trazemos em nós um sistema elaboradíssimo, que se denomina de Sistema Nervoso Autónomo, cuja principal função é ser uma espécie de guarda-costas, que se mantém em constante alerta, analisando tudo o que acontece interna, externamente e nas relações que estabelecemos com os outros, classificando-o como sendo ou não perigoso para nós. Esta análise, quase que uma espécie de escuta constante que procura por pistas de segurança, perigo ou ameaça de morte, acontece muito abaixo do limiar da consciência, o que nos impede, em vários momentos, de perceber e elaborar conscientemente estados e sensações de agitação interna, ansiedade ou medo. No entanto, esses estados estão despertos em nós e marcam a forma como vivemos os nossos dias.

A relação de tudo isto com o presente momento, é que, na prática, este sistema não tem tido tréguas e, a grande maioria de nós, vive diariamente com uma sensação interna de insegurança e perigo constante. Mais, se a nossa sensação de segurança se baseia, em grande parte, na relação com o outro, nas ligações que vamos estabelecendo, o momento actual resulta em que experienciemos uma luta interna diária, entre a necessidade de nos mantermos ligados a outros e a mensagem externa, amplamente divulgada, que nos diz que estar perto do outro é igual a correr risco de vida. O resultado disto não pode, certamente, configurar nada de tranquilo, equilibrado e gerador de saúde, seja física, mental ou emocional.

Este vírus que, ganhou eco de contágio entre a população mundial, trouxe consigo um tipo
de mudança ao nível da nossa vivência diária, que a maioria nunca tinha experienciado. Seja pelas dificuldades práticas do dia-a-dia, seja pelas consequências financeiras com que muitos têm que lidar, pelas preocupações consequentes que essas dificuldades implicam ou pelas adaptações relacionais (sociais, profissionais, familiares) a que tivemos que nos adaptar.

Partilho, obviamente, das preocupações médicas, científicas e sociais que este vírus nos trouxe. Sabemos (negá-lo é da ordem do absurdo) que o vírus é altamente contagioso, que é particularmente perigoso nas populações consideradas de risco, principalmente nas pessoas com mais de 65 anos. Também sabemos que, na grande maioria dos casos, uma pessoa que contrai o vírus permanece em casa, com sintomas ligeiros que se manifestam por um período não muito longo. Existem excepções, existem sempre.
É verdade, também, que existe um foco de incerteza quanto a possíveis sequelas futuras, mesmo nas pessoas que apresentam sintomas ligeiros, que não deve ser descurado e, por isso mesmo, é importante que cada um mantenha a preocupação individual de garantir as medidas de higiene e segurança necessárias à sua protecção e de outros.
Não nego, em nenhum momento, a necessidade de unidade social em torno de tentar conter ao máximo e, dentro do possível, a propagação do vírus.

Dito isto, julgo ser importante não esquecer um outro lado de toda esta questão que tem sido constantemente posto de parte, quer por governantes, quer pela maioria das pessoas que ouço comentar ou escrever sobre este assunto. Esse outro lado prende-se com o impacto final que todo este clima de medo e insegurança, vivido meses a fio (e não sabemos quanto mais tempo durará), vai provocando em cada um de nós, deixando alterações a vários níveis, com as quais teremos todos que lidar no futuro. E, talvez não seja num futuro assim tão longínquo, tendo em conta o que já vamos vendo chegar aos consultórios médicos e de psicologia, um pouco por todo o país.

Ao escrever estas palavras, ecoa-me uma frase que ouvi há muitos anos e que me fica a povoar o pensamento: “andamos a dar mais anos à vida mas será que damos mais vida a aos anos?”

Não sei a resposta a esta pergunta e não pretendo, de forma alguma, desvalorizar os avanços médicos que, felizmente, têm permitido um aumento substancial na qualidade de vida de muitas pessoas e que, paralelamente, tiveram um impacto visível nos valores médios da esperança de vida. Não posso, no entanto, deixar de reflectir sobre a forma como vivemos esse (estes) tempo a mais que nos vai sendo concedido (felizmente).

E é exactamente neste ponto que se enquadra o momento presente e a minha reflexão sobre como estamos a viver, por um lado, e, por outro, sobre como será um futuro, não muito distante, em consequência desta vivência.

Devemos tentar salvar o máximo de vidas possível (sejam relacionadas com Covid-19, como com outras doenças). Ponto final. Não há nenhum argumento ou dúvida quanto a isto. Parece-me, ainda assim, que, enquanto nos concentramos a salvar vidas em número, nos vamos esquecendo das vidas que não fazem parte desses números e da forma como essas pessoas, que também estão vivas (e que somos todos nós, na realidade) viverão quando tudo isto terminar.

Não é possível vivermos eternamente com medo. Não é possível vivermos eternamente afastados uns dos outros (bom, será possível para algumas poucas pessoas mas esse é outro assunto). Não é possível vivermos fechados em casa meses a fio, com recolheres obrigatórios e mensagens constantes de perigo (muitas vezes exacerbado, na minha opinião). Ou, dito de outra forma, é possível mas, o que não é possível, é que tudo isso aconteça sem graves consequências, a todos os níveis, consequências essas que ultrapassam a questão do número de mortes por este vírus. Mortes e familiares por quem tenho o maior respeito e solidariedade, diga-se.

Temos que conter a propagação do vírus ao máximo, dentro do que é possível. Mas temos, também, que continuar a viver.

Viver, buscando fontes promotoras de segurança, de equilíbrio, de alguma estabilidade possível, por entre toda esta loucura que vivemos. Viver, com cuidado e protecção, por nós e pelos outros, mantendo medidas de higiene e segurança, mas viver.

Afinal, precisamos de respirar para viver, mas Viver é bem mais que respirar.

4 Comentários

  1. Bruno Almeida

    Dra. Carla, obrigado por partilhar a sua visão, pois serve como reflexão e como guia de “saber viver” nestes tempos difíceis.
    Abraço

    Responder
    • Carla Carvalho

      Muito obrigada pelo seu comentário, Bruno. Um abraço

      Responder
  2. Frederica

    Muito obrigada Carla pela tua reflexão,porque estamos só a pensar numa direcção,como conter(a propagação),como sobreviver. Há muita tensão no ar.

    Não podemos esquecer de viver. Obrigada Frederica

    Responder
    • Carla Carvalho

      Obrigada pelas palavras, Frederica. Fico contente por saber que o que escrevo vai sendo útil de alguma forma. Um abraço

      Responder

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