Na minha busca por ferramentas e conhecimento que possam ser mais eficientes e respondar com mais sucesso às necessidades e dificuldades da pessoa que recorre a ajuda psicológica, têm sido vários os caminhos que tenho experimentado. Comecei por explorar psicoterapia corporal, estudei várias vertentes (entre elas a Análise Bioenergética, cujos exercícios ainda hoje uso em diversos momentos), percebi a importância e eficácia em determinados processos, mas faltava algo. Posteriormente, segui o caminho da psicologia clínica tradicional, para no final sentir que também não bastava. Desde esse momento, a busca tem sido no sentido de integrar duas vertentes e trabalhar com ambas, em função das necessidades específicas de cada pessoa e situação.

É uma completa mudança de paradigma mas é uma mudança necessária, que só peca por tardia.
Somos ensinados a sentar-nos e ouvir o outro, a trabalhar com o que os clientes trazem em palavras, recorrendo à sua memória autobiográfica, aos acontecimentos de que se lembram, ou seja, com as suas memórias explicitas. No entanto, com o tempo e com alguma experiência, apercebermo-nos que os clientes trazem com eles, na maioria das vezes, um tipo de sofrimento associado a formas de ser e de reagir a estímulos externos, cuja origem não está consciente. É, exactamente, aqui que começam os limites da psicoterapia pela palavra.
Porquê? porque no nosso comportamento diário, nas formas de nos ligarmos e reagir ao mundo, somos maioritariamente governados por memórias implícitas. Ou seja, aquilo de que não nos lembramos de forma consciente. Ora, se não nos lembramos, como poderemos falar sobre elas? Se não falamos delas, se não nos lembramos delas, como aceder a esse lugar de sofrimento e ajudar a curá-lo?
“Qualquer coisa que aumente, diminua, limite ou amplie o poder da ação do corpo, aumenta, diminui, limita ou amplia o poder de ação da mente.
E qualquer coisa que aumente, diminua, limite ou amplie o poder da ação da mente, também aumenta, diminui, limita ou amplia a ação do corpo.” Espinoza
O cérebro começa a funcionar logo desde a nascença, ainda que de forma muito limitada e sem todos os seus recursos desenvolvidos. Em cada fase, o cérebro vai desenvolvendo novos recursos e capacidades. Apesar destas limitações, sabemos que este é fortemente influenciado pelo ambiente e experiências vividas nestes primeiros anos. Essas experiências ficam gravadas em nós e são, tantas vezes, a raiz de dificuldades que acabamos por experienciar em adultos.

Sem essa percepção, as memórias passadas manifestam-se em nós através de reacções e comportamentos que, não raras vezes, não compreendemos. Na presença de alguém ou alguma situação que active uma memória pré-verbal, o organismo reage acedendo a essa memória implícita, mesmo que não nos lembremos do porquê de forma consciente. Assim, desenvolvemos padrões de comportamento que não entendemos, porque estamos impossibilitados de aceder a essas memórias implícitas.
Podemos falar de uma resposta de inexplicável irritação a determinada pessoa ou situação, ou de um medo irracional de algo que não conseguimos explicar. Activamos respostas físicas,fisiológicas, emocionais, que geram padrões de comportamentos, com os quais temos que viver diariamente porque, mesmo que não nos lembremos de forma explícita e autobiográfica, o nosso corpo lembra-se, as nossas emoções lembram-se.
Existem, claro, casos em que a nossa memória auto-biográfica acede a informação importante e nos permite falar sobre acontecimentos marcantes, mas ao agirmos apenas no campo das palavras, ao falar simplesmente sobre esses acontecimentos, podemos não chegar aos processos implícitos que estão na raiz do comportamento. O que se pretende, é aceder à memória experiencial, para poder resolvê-la. Não queremos permanecer apenas ao nível cognitivo e falar sobre ela, queremos aceder à experiência.
A Psicoterapia Sensoriomotora propõe uma abordagem que começa por trabalhar com os hábitos, com os comportamentos aprendidos, através do corpo, porque o corpo espelha de forma muito clara as nossas memórias implícitas.

Se alguém cresce num ambiente em que nunca se sente seguro, pode começar, desde muito cedo, a contrair o seu corpo, os músculos, desenvolvendo no corpo uma postura virada para dentro,numa tentativa de se proteger. Ao olharmos para o seu corpo em adulto, poderemos ver, por exemplo, alguém com uma ligeira curvatura nas costas e os ombros curvados para a frente, num movimento de protecção. Se alguém cresce num ambiente em que sente que tem sempre que ter sucesso em tudo o que faz, talvez sinta que o amor da família está condicionado a resultados e, como tal, é impulsionado a tentar ser o melhor em tudo o que faz. O seu corpo pode mostrar uma postura de estar sempre mobilizado para a acção, direito, ombros segurados em cima, pronto para o desempenho.
Na Psicoterapia Sensóriomotora, tem-se atenção à postura corporal, aos movimentos, aos gestos, às formas que o corpo vai tomando no sentido de se fechar, de se deixar simplesmente cair, de se mover para trás em defesa ou de se manter rígido e direito mostrando-se pronto para atacar. Este tipo informação é precioso porque estas reacções não são conscientes, são automáticas e podem conduzir-nos, directamente aos efeitos provocados pelas memórias implícitas. Porquê? Porque podemos não lembrar algo detalhadamente mas lembramos como nos fez sentir. Lembramos a sensação no corpo e, diversas vezes, activamos o sistema de crença que desenvolvemos numa fase muito primária.

Existem vertentes de Psicoterapia Corporal que trabalham com abordagens Bottom up, como terapias mais corporais, massagens, ou yoga e são abordagens com muito potencial de transformação ao nível do corpo, mas deixam de fora um trabalho crucial ao nível das emoções e crenças. Uma terapia Top Down, aborda certamente o sistema de crenças, através de palavras e, algumas vertentes, chegam a trabalhar com processos emocionais. Mas não abordam os processos essenciais que estão gravados no corpo.
Na Psicoterapia Sensóriomotora, trabalha-se com ambas as abordagens e esse é o grande benefício. Trabalha-se Top Down com o que está explicito, com o que é lembrado e falado na terapia mas, ao mesmo tempo, trabalha-se Bottom Up, directamente com o corpo, através de movimento, da postura, da estrutura corporal, das expressões faciais, das sensações corporais, resumindo, com todas as formas que o corpo tem de armazenar memórias. Na realidade, integram-se ambas as abordagens, criando uma abordagem com um maior potencial de cura. A tal mudança de paradigma que me referi em cima.
Em vez de apenas falar sobre experiências ou sobre o passado, o cliente começa por aprender a perceber as suas respostas físicas e o que fazer com elas.

Mesmo quando existe uma memória explícita, queremos, ainda assim, trazê-la para o corpo, no sentido de ajudar o corpo a mudar e conseguir suportar uma nova forma de ser e estar. Quer lembremos ou não determinadas memórias, o corpo é indispensável na mudança do efeito que algumas das experiências passadas, de sofrimento ou mesmo trauma, ainda têm no presente e se manifestam em padrões de comportamento.
Na Psicoterapia Sensóriomotora, pretende-se que o cliente aprenda a perceber como o corpo responde ao mundo. Em vez de interpretar a experiência, o cliente foca-se nas respostas corporais e trabalha-se psicoterapeuticamente a partir daí no sentido de desenvolver novas formas de conseguir suportar o seu novo Eu.
Adaptado de “Wisdom of the Body”, Pat Ogden





Gostaria de aprender mais sobre essa terapia
Bom dia Adriana,
Pode consultar mais informação sobre a Psicoterapia Sensoriomotora em https://sensorimotorpsychotherapy.org
Espero ter ajudado.
Cumprimentos e boas festas!